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ARTIGO: Ego e alteridade na Polícia Militar

Samuel Fernandes Soares, é tenente coronel da PMESP, atual comandante do 38º BPM/I. Mestre e doutor Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo CAES.
schedule terça, 13/10/2026 as 15:57

Trabalhar o ego do ser humano é um desafio constante na formação e na liderança dentro da Polícia Militar.

Com efeito, para que o policial militar desempenhe sua missão com excelência, é imprescindível que suas vaidades e interesses individuais sejam subordinados ao bem comum, em uma construção pautada por sólida base principiológica. Eis por que o exercício do comando e a instrução diária devem ser os alicerces dessa transformação, garantindo que a altivez do militar advenha do espírito de corpo e da eficiência no serviço, nunca da arrogância.

A primeira via para mitigar a força do ego é o fortalecimento da subordinação à missão coletiva. A disciplina policial-militar tem como base essencial a sujeição voluntária do indivíduo aos objetivos do conjunto do qual faz parte. Treinamentos como a Ordem Unida são ferramentas fundamentais para demonstrar que as atitudes individuais devem, obrigatoriamente, curvar-se à missão do grupo, a fim de que a tarefa de todos seja bem-sucedida. É por meio do cultivo da verdadeira camaradagem que o militar aprende a esquecer-se de si, diluindo o ego para atuar unicamente pelos interesses da coletividade policial-militar e da sociedade. No dia a dia, o profissional há de sobrepor a deontologia da Instituição aos seus valores pessoais.

O exercício da liderança atua como o principal antídoto à arrogância na tropa. O Comandante, em sua posição de autoridade, deve saber se impor inspirando confiança, amizade e respeito. Contudo, essa autoridade jamais deve traduzir-se em arrogância ou na percepção de que os subordinados são seres inferiores e desprovidos de dignidade. Pelo contrário, a liderança exige a demonstração diária de lealdade, autocontrole e paciência, virtudes essenciais para a coesão da tropa. Da mesma forma, o gestor maduro reprime a própria vaidade ao evitar atitudes populistas, como conceder méritos injustificáveis ou tentar agradar os homens apenas para obter simpatia, pois tais práticas corroem a disciplina. A liderança sábia consegue, sobretudo, distinguir a verdadeira camaradagem da mera intimidade.

Nesse processo de desconstrução das vaidades, a deontologia policial-militar impõe o dever irrestrito do respeito mútuo. Os valores que fundamentam a Instituição – como a hierarquia, a disciplina, a honra, a verdade real e a dignidade humana – exigem uma atuação que seja, ao mesmo tempo, disciplinada e disciplinadora. Manter um ambiente de harmonia implica solidarizar-se nas dificuldades, evitando comentários desairosos sobre os companheiros e promovendo o respeito em todos os níveis hierárquicos. Além disso, o policial militar deve conduzir-se de modo digno, não subserviente, mas sem ferir as normas do decoro, compreendendo que é terminantemente proibido utilizar o seu posto ou graduação – artifícios de um ego mal direcionado – para obter qualquer facilidade pessoal.

Por fim, a impessoalidade e a afirmação da dignidade humana devem permear todas as ações da tropa. A legislação que rege as polícias militares (Lei Orgânica Nacional) estabelece que a função deve ser balizada pela moralidade, pela razoabilidade e, sobretudo, pela impessoalidade, garantindo que o servidor público não atue por vaidades, mas pela estrita observância da lei. As relações disciplinares, geridas pelos Códigos de Ética, devem ter como pilar fundamental a dignidade da pessoa humana. Ao compreender o princípio da igualdade e da fraternidade, o policial militar interioriza que todos os seres humanos merecem o mesmo respeito e proteção.

Enfim, a cooperação solidária, que inibe posturas individualistas, torna cada membro corresponsável pelo desenvolvimento coletivo, consolidando a ideia de que a farda não é um instrumento de poder pessoal, mas sim de serviço público, devoção e sacrifício em prol de toda a sociedade.

 

Samuel Fernandes Soares, é tenente coronel da PMESP, atual comandante do 38º BPM/I. Mestre e doutor Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo CAES.

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