

Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld
A Editora Benedictus acaba de publicar, sob nossa responsabilidade na tradução e organização, o livro Vida e obras de Santo Antão. Está dividido em três grandes partes: na primeira, vem a clássica vida do santo, segundo Santo Atanásio de Alexandria, bispo e doutor da Igreja; na segunda, as Cartas de Santo Antão; e, por fim, os Apoftegmas (breves sentenças com ensinamentos espirituais) do mesmo santo.
Dom Estêvão Bettencourt, OSB, defende que, no século IV, muito contribuiu para o estilo eremítico, tido como a primeira forma de vida consagrada na Igreja, a difusão da Vida de Santo Antão (251-356). Nesta obra, além das narrativas das famosas tentações de Antão, conta-se que sendo ele “filho de uma família cristã rica, ouviu o apelo do Senhor proclamado na Igreja e resolveu deixar tudo, retirando-se para o deserto do Egito; após ter providenciado a subsistência de sua irmã mais jovem” (História da Igreja. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2012, p. 126).
De fato, a figura de Antão foi deveras importante, pois vivera como eremita desde cerca de 270, nos desertos de Nitria e Escete (no Baixo Egito). Todavia, por volta de 290, alguns discípulos se associaram a ele. Cada eremita, no entanto, vivia em sua cela de modo independente, mas sob a direção ou à luz dos conselhos de Antão, embora não fossem cenobitas ou homens de vida comum propriamente dita. Fala-se até em uma suposta Regra elaborada por Santo Antão, mas, segundo bons estudiosos, ela não é autêntica por várias razões: Santo Atanásio, biógrafo de Antão, não a menciona em sua obra; tem ela características de mera compilação, e não de trabalho de uma só pessoa; e chegou até nós apenas em Latim, em duas versões, uma a partir de tradução do árabe, em 1646, e outra em 1661 (cf. Johannes Quasten. Patrologia: fundadores del monaquismo egípcio. Mercaba.org, on-line). Eis o que, com riqueza de detalhes, o livro em foco narra, dando, inclusive, em um longo trecho, a palavra ao próprio Santo Antão (cf. pp. 59-87).
Eis o que sobre nosso santo se lê nas páginas 45-46: “Assim vivia Antão e era amado por todos. Por seu lado, submetia-se com toda sinceridade aos homens piedosos que visitava, e se esforçava por aprender aquilo em que cada um o avantajava em zelo e prática ascética. Observava a bondade de um, a seriedade de outro na oração; estudava a aprazível quietude de um e a afabilidade de outro; fixava sua atenção nas vigílias observadas por um e nos estudo de outro; admirava um por sua paciência, a outro por jejuar e dormir no chão, considerava atentamente a humildade de um e a paciente abstinência de outro; e em uns e outros notava especialmente a devoção a Cristo e o amor que mutuamente se tinham. Havendo-se assim saciado, voltava ao seu lugar de vida ascética. Então, se apropriava do que havia obtido de cada um e dedicava todas as suas energias a realizar em si as virtudes de todos”.
À luz de Fl 3,13 e 1Rs 17,1; 18,15, “observava que, ao dizer ‘este dia’, não estava contando o tempo que havia passado, mas, como que começando de novo, trabalhava duro cada dia para fazer de si mesmo alguém que pudesse aparecer diante de Deus: puro de coração e disposto a seguir a Sua vontade. E costumava dizer que a vida levada pelo grande Elias devia ser para o asceta como um espelho no qual poderia sempre mirar a própria vida” (p. 51). De fato, é no “aqui e agora” da nossa existência que Deus opera, em seu plano de amor, a nossa salvação.
Suas Cartas (cf. pp. 145-189), escritas, em tom exortativo e amoroso, com grande zelo pela salvação de todos, servem de matéria de leitura meditativa individual ou até mesmo para um retiro espiritual, a só ou em comunidade. O mesmo pode-se dizer dos preciosos Apoftegmas compilados nas páginas 193 a 204.
Fazemos votos para que tal obra encontre ampla aceitação.
Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld