

Por: Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é autor do livro Monges e monjas cistercienses e trapistas: pequena introdução à vida monástica (Ed. Benedictus).
Convém, logo de início, definir, com Dom Estêvão Tavares Bettencourt, OSB, que “espiritualidade é a atitude (compreendendo convicções e práticas) que o homem assume frente aos valores espirituais (Deus, a alma humana, a imortalidade póstuma...)” (Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006, p. 1-2).
Sim, “feito pelo Absoluto e marcado com o sinete do Absoluto em seu coração, todo homem é um peregrino do Absoluto. Ele tem consciência de que ‘passa a figura deste mundo’ (1Cor 7,15) e por isto tende ao encontro daquilo que ‘o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, o coração do homem jamais percebeu’ (1Cor 2,9)” (idem).
Ora, dentre as diversas escolas de espiritualidade católica (carmelita, franciscana, beneditina, jesuíta etc.) está a cisterciense – e, por conseguinte, a trapista, nascida no século XVII e formalmente aprovada pela Igreja no século XIX –, pois, embora beba nas fontes beneditinas, traz suas características muito próprias.
Daí citarmos uma respeitável afirmação de Dom Bernardo Olivera, O.C.S.O., antigo abade geral trapista, a sustentar que “existe uma ‘espiritualidade cisterciense’ (fé levada à vida com uma forma determinada), distinguível das outras espiritualidades, inclusive monástica. Alguns dos elementos dessa espiritualidade seriam: a importância da experiência pessoal e comunitária, a afetividade, a Regra de São Bento sem acréscimos, a caridade cenobita e contemplativa, a unanimidade, a amizade, a santa Humanidade de Jesus Cristo, a devoção mariana... Não faltam os que opinam que não se pode falar de uma espiritualidade propriamente cisterciense (J. Lecrercq). Mas, existe sim, graças aos cistercienses, e sobretudo a São Bernardo de Claraval, uma ‘teologia da espiritualidade ou da mística’” (Introducción a los Padres y Madres cistercienses de los siglos XII e XIII. Burgos: Fonte & Monte Carmelo, 2020, p. 45).
Essa espiritualidade nasce, segundo Dom Luís Alberto Ruas Santos O. Cist., de “uma síntese feliz e atraente dos três elementos que predominavam nos movimentos de reforma monástica. Os mosteiros da Ordem ofereciam um alto grau de solidão, seja pelo afastamento da sociedade e da trama de seus relacionamentos, seja pela estrita disciplina de silêncio que neles vigorava, com longas horas dedicadas à lectio – leitura orante e meditada da Palavra de Deus – e à oração privada, e ao mesmo tempo o consolo de uma comunidade fraterna. Por outras palavras, havia na vida cisterciense uma boa dose de eremitismo dentro de um quadro de comunhão fraterna própria ao cenobitismo e ao ideal de vida apostólica. Enfim, os cistercienses quiseram ser pauperes Christi, pobres de Cristo, ou seja, pobres com o Cristo pobre e, com isso, encontraram a terceira tendência do monaquismo reformado do século XI” (Bernardo de Claraval. Campinas: Ecclesiae, 2021, p. 44 – itálicos nossos).
Mais ainda: “Os mosteiros cistercienses produziram grandes místicos. O mais importante deles foi São Bernardo de Claraval. Há muitos outros nomes, sobretudo no século XII, como Guilherme de Saint-Thierry, Elredo de Rievaulx ou Isaac de Estrela, para citar apenas os mais conhecidos. Todos eles escreveram sobre sua experiência mística pessoal. O florescimento da escola cisterciense é o grande atestado de sucesso da aventura espiritual vivida nos mosteiros da Ordem. Esses autores oferecem em suas obras riquezas espirituais que guardam, ainda hoje, todo o seu valor, não só para os monges, mas para todos os cristãos. Talvez não tenha havido na Igreja uma escola de espiritualidade tão uniforme na temática e com tantos autores como a cisterciense” (idem, p. 47).
Possam estes dados corroborar nossa afirmação: há, sim, com sua indescritível beleza, uma escola cisterciense de espiritualidade. Ela merece, pois, ser mais conhecida e apreciada.
Por: Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é autor do livro Monges e monjas cistercienses e trapistas: pequena introdução à vida monástica (Ed. Benedictus).