

Por: Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é o tradutor e organizador da coleção Monaquismo Antigo
Eis, da Editora Benedictus, o volume III da coleção Monaquismo Antigo (em sete volumes), que tem por título Contra os impugnadores da vida monástica e foi escrito por São João Crisóstomo († 407), padre e doutor da Igreja, que, após uma experiência de vida eremítica, tornou-se grande defensor do monaquismo.
Aqui, no estilo de um brilhante advogado no tribunal, o santo elabora três grandes discursos bem concatenados. Parece-nos que, embora escrito no fim do século IV, esse livro constitui um manual apto a defender, ainda nos nossos dias, não só a vida monástica, mas outras doadas a Deus entre religiosos ou leigos. Basta, a título de exemplo, recordar o livro e o filme O Nome da rosa, no qual Umberto Eco, a pretexto filosófico de discutir o realismo de Aristóteles e São Tomás de Aquino, em contraposição ao nominalismo de Guilherme de Ockham, critica fortemente a vida monástica, especialmente a beneditina. No campo da vida leiga, outro livro e filme, O Código da Vinci, serve para levantar fortes debates contra o Opus Dei – instituição católica fundada por São Josemaría Escrivá de Balaguer, em 1928, na Espanha –, somando-se a tantos outros insultos encaminhados contra homens e mulheres que, por livre e espontânea vontade, entregam sua vida a Deus.
No Discurso I, intitulado Ninguém vence a guerra contra Deus, o santo, como o próprio título sintetiza, afirma ser inútil tentar lutar contra o Senhor. Os que o fizeram não se deram bem. Daí sua exortação para que os opositores do Evangelho o ouçam e se convertam o quanto antes: “Deixando de lado o interesse dos monges, quero olhar só o vosso, e vos rogo e suplico que atendais às minhas exortações. Não craveis a espada em vós mesmos, não deis murros em ponta de faca, não penseis que molestais os homens, quando estais contristando o Espírito Santo. Eu sei muito bem, estou persuadido de que, se não agora, um dia louvareis esta minha intenção; mas quero que o façais agora, a fim de que logo não o façais em vão” (p. 39). Afinal, as aflições já penosas deste mundo não são nada em comparação com os tormentos eternos (cf. p. 29). É oportuno pensar nisso.
Em A um pai infiel, título do Discurso II, o santo busca oferecer exemplos naturais do dia a dia (cf. p. 68) e da própria História, opondo monarcas famosos, que viviam na opulência, a filósofos ou líderes políticos muito mais célebres, apesar de se manterem na simplicidade. São palavras de Crisóstomo: “Os homens que te citei não só foram mais ilustres que os que brilham nos palácios, mas mais ilustres que os próprios reis, apesar de terem levado uma vida de recolhimento e alheia aos negócios e não terem se aproximado nem da política. E ainda na própria política não verás que brilham os que vivem na opulência, entre delícias e fausto, mas os que levam a vida sóbria e simples” (p. 77).
Por fim, o Discurso III, mais longo, é intitulado A um pai cristão e traz argumentos em favor da vida monástica. O santo diz que viver no mosteiro é admirar a prefiguração do céu: “A prova de que isto não é falar por falar está em que, quando mencionamos aos infiéis a vida dos que moram no deserto, eles nada têm a nos replicar; só se admiram e porfiam no pequeno número dos que alcançam esta perfeição. Mas se nas cidades semeássemos também esta semente, se a disciplina do bem-viver se convertesse em lei e costume e ensinássemos às crianças, antes de todas as coisas, a serem amigos de Deus e os instruíssemos nos ensinamentos espirituais em lugar das outras coisas e antes que todas as outras coisas, todos os nossos pesos se desvaneceriam, a vida presente se veria livre de infinitos males e, desde agora, começaríamos todos a gozar do que se diz da vida do céu: Que dela ‘fugirá toda a dor, a tristeza, e o gemido’ (Is 51,11)” (p. 169).
Possa a obra ser útil ao povo de Deus.
Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é o tradutor e organizador da coleção Monaquismo Antigo