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Artigo da Semana: O silêncio monástico

Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld.
schedule sexta, 20/03/2026 as 12:34

Os estudiosos do monaquismo são unânimes em dizer que sem silêncio, interior (em relação ao mais íntimo do coração humano) e exterior (referindo-se a palavras ou expressões externas), não há vida monástica propriamente dita. Mesmo não sendo um fim em si mesmo, ele se faz indispensável e essencial ao monge.

Daí, tanto a Regra de São Bento quanto a tradição cisterciense atribuírem imensa estima ao silêncio, dado que por ele é que se chega à vida de oração mais perfeita e, consequentemente, à presença de Deus a fim de ouvi-Lo na ausência das inquietações daninhas de dentro e de fora. Para São Bento, “o silêncio é um meio indispensável para que possamos escutar a Deus. Respeitando fielmente os tempos de silêncio, nossos corações se dispõem para melhor ouvir a Palavra de Deus e cumpri-la com mais generosidade. Assim, pois, o silêncio deve ser o ambiente propício no qual transcorre o dia a dia do monge” (Congregação Brasileira dos Cistercienses. Na escola do serviço do Senhor. Juiz de Fora: Subiaco,  2006, p. 12).

No entanto, pode-se notar, tanto na Regra de São Bento quantos nos escritos dos cistercienses, que sempre houve sabedoria no uso do silêncio e da fala nos mosteiros. Deste modo, vemos que, embora as regras a respeito da vida silenciosa fossem bastante severas, nas primeiras comunidades da Ordem, havia intercomunicação pessoal. Sim, “a vida de São Bernardo fornece inúmeros exemplos de comoventes amizades, impossíveis de serem cultivadas sem aquele contato pessoal nutrido pelo diálogo. Santo Elredo escreveu mesmo um tratado sobre a amizade espiritual que não contém apenas teorias abstratas sobre o assunto, mas reflete, em grande medida, como o próprio texto e sua biografia deixam entrever, sua experiência pessoal neste campo. Pode-se dizer que a amizade entre monges era algo bastante comum nos mosteiros da época” (Dom Luís Alberto R. Santos, O. Cist. Nada antepor ao amor de Cristo. Campinas: Ecclesiae, 2022, p. 158).

Hoje, buscar preservar – com o famoso equilíbrio beneditino – o silêncio, é tarefa deveras importante, uma vez que a nossa sociedade está cada vez mais agitada e barulhenta e os meios de comunicação podem invadir os mosteiros (rádio, TV, internet, aparelhos celulares...) de modo um tanto natural. Não se pode ignorar isso. Todavia, este “espírito da época” também não deve, jamais, ser pretexto para sacrificar o silêncio – interno ou externo –, valor autêntico na vivência da verdadeira vocação monástica, que precisa ser zelado sob pena de se perder o rico patrimônio deixado pelos antigos monges. É Dom Manu van Hecke, OCSO, quem afirma: “Seja como for, nossas constituições ensinam que o não falar assegura a solidão e estimula ao mesmo tempo a communio. A taciturnidade é tanto a custódia do falar como do pensar” (Espiritualidade: espaço para o outro. Juiz de Fora: Subiaco, 2020, p. 89).

Por fim, cabe notar que o silêncio praticado nos mosteiros possui, no âmbito espiritual, a finalidade muito específica de escutar a Deus que fala. São palavras de Dom Bernardo Bonowitz, OCSO: “O ‘silêncio’, diz o grande escritor monástico ortodoxo Isaac de Nínive, ‘é a linguagem do mundo vindouro’. [...] A vida monástica se esforça por ser uma antecipação do mundo vindouro. O silêncio é uma dessas grandes antecipações. No silêncio do mosteiro, dos lábios e dos pensamentos e desejos, o monge encontra uma comunhão perpétua com Deus que ele almejava tão intensamente e provavelmente por longo período de tempo. O que ele diz agora? Repete constantemente em seu coração a frase do jovem profeta Samuel em seu primeiro encontro com o Deus vivo: ‘Fala, Senhor, que teu servo escuta’ (1Sm 3,10b)” (Buscando verdadeiramente a Deus. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2013, pp. 28-29).

Aprendamos, pois, com o silêncio monástico!

 

Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld.

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